25 de Abril

A Nazaré viveu de forma intensa o período do Estado Novo e desde logo revelou grande sensibilidade para as questões ligadas à opressão de uma classe que deixou raízes na descendência.
Trata-se de uma localidade que passou por períodos difíceis da sua história, com nítidos reflexos no quotidiano actual. A sociedade local foi educada com base em valores que ainda hoje perduram, de modo que virar costas a uma data tão marcante como é o 25 de Abril pode constituir um suicídio político e fatal para a nossa prole. Os nossos filhos devem ser o reflexo dos seus progenitores.
A história nazarena tem sido sobressaltada por perturbações sociais cujas cicatrizes ainda perduram. As vivências dessa sociedade foram marcadas episodicamente por instantes que não se extinguem com um simples clique. A libertação dos povos começa com a libertação das mentes.
A data tem, por isso, que ser assinada como ela dignamente merece. Não nos podemos deixar vencer pela inércia e pelas tendências neo-conservadoras que proliferam e que por momentos nos contagia. Não podemos apagar da memória as nossas memórias.
A nossa descendência deve ter conhecimentos dos passos feitos prestados pelos antecessores. Pois existem comportamentos que fixaram a história.
O poder local foi uma das primeiras vitórias conquistadas em Abril de 74. As atitudes tomadas pelos dirigentes autárquicos designados pelo Estado Novo que causticaram o povo nazareno já foram deveras escalpelizadas e delas não reza a história. O compêndio deve abrir as suas páginas ao comportamento de dirigentes como Abílio Sousa, Abílio Figueira, Fernando Rodrigues Soares, Carlos Belo Nunes, etc que geriram os destinos desta terra partir dos Paços de Concelho, numa altura em que os financiamentos comunitários pura e simplesmente não existiam. Viviam da bondade das suas intenções e do empenho desinteressado que impunham na causa.
Na realidade, esses momentos foram interceptados por posturas que catapultaram o nome da Nazaré para a boca do mundo e sempre pelas piores razões. Autarcas preocupados com o seu feudo, com o seu ego, mas com nítida tendência para autoflagelação, desconhecedores das mentalidades locais, não só colocaram nazarenos contra nazarenos, como lograram contar com uma força de intervenção especializada para travar, em plena Avenida Vieira Guimarães, as justas reivindicações dos nossos conterrâneos. Fizeram aquilo que o antigo regime nunca tinha conseguido almejar: Trazer a Polícia de Choque à Nazaré.
A nossa felicidade é que bastaram tão poucos anos para a história se reescrever e colocar essas figurinhas na prateleira dos inaptos, na galeria dos eternos derrotados.
A Nazaré continuará a viver o 25 de abril com o ardor de outrora. Não são as contrariedades que esta pandemia nos impõe que nos vai roubar esse ânimo.

Manuel António Sequeira

Nazaré, 22 de abril de 2020

Facebook Connect